segunda-feira, 21 de maio de 2012

Finda a flecha, acaricia a mecha.

Beija-se a nuca, acaricia com ternura o peito. 
Exarca de desejo os lábios cálidos de dois amentes, dois fieis perpétuos de momentos ilícitos de puro desatino, de puro calo denso de sangue fervido. Arrebata, com força, a mente boba de delírios irracionais, e depois esgota, devido a  pouca tinta, as listras perdidas das nossas deslisantes despedidas noturnas, pelas costas, pelas dunas. 
Filtra-me os sonhos calejados pelo tempo remoto da vida, já esquecida em cima de um palco mistico, encenado por atores por meio de paráfrases soltas de poetas loucos e dementes. Sortudos são aqueles que amam, já os desprovidos de sorte são aqueles que apodrecem por medo, por frieza, por estupidez, por causa própria e por incerteza das desconfianças, que oriundas da paixão, estraçalham, sem comoção, o peito. 
Desgastantes silabas repetitivas das correntes enferrujadas da prisão, da imensidão, da escuridão. Já os moinhos ainda se estremessem sozinhos e celebram o pôr-do-sol mais lindo, acompanhados simplesmente da inconstante brisa que adquire sinônimo de melancolia, perdidos em uma noite fria.
Desfaz o tempo, quase um complexo, desfaz a infância. É hora de tornar-se maduro o suficiente e dilacerar as  vísceras mortas que só atrapalham o curso da evolução e se envolver uma vez por todas, por completo, pela essência das pragmáticas razões incrédulas, de dois seres a se deliciar com uma valsa francesa, na grandiosidade das trocas esbeltas de carinho e de, mais uma vez, ternura.
Redimensiona as raízes da nossa dança, e no meio de olhares perdidos, vai-se crescendo e distribuindo nuances paralelos de verbetes e ações cristalizadas de puro clichê romântico. Foi-se o começo, mas que seja o começo eterno, do muito de coisas simples, e do pouco de coisa pouca, sem valia, sem lembrança... O todo é apenas a libidinosidade de estar com você - o todo é vontade.


domingo, 6 de maio de 2012

ás vezes, mesa.

Barganhar seu sorriso,
Em meio a desilusões reciprocas e ambíguas.
Se for para escolher com quem ficar;
Você não vai pensar, vai logo debruçar sobre a mesa...
E com êxito vai gritar, e de leve vai chorar.

Eu sei - direi baixo e sem demora...
- Por quem choras e assim porque mentes.
Direi, se necessário, mil vezes.
Por quem lutas, por quem sonhas.
E debruçarei, também a mesa -
E pedirei, incensamente, só mais um sorriso,
Só mais um suspiro...

"Às vezes te odeio por quase um segundo"

É paradoxal, suas peripécias, suas artimanhas...
Mas, qualquer sorriso, posto a mesa,
E qualquer frase ambígua em sua camiseta,
Já desfaz o ódio, sobram, então, os loucos desprovidos de dor
Apenas enraizados no esplendor.

Então me revigore, me devore...
Ensine-me a confiar nas pragmáticas lacunas do desejo...
Dessa 'noia' desse bobo e louco 'sub-objeto' sem pretexto.
Revele-me...
A pessoa com quem te embriagas
Na noite sem pausa e no toque sem causa.

E por aí vai reciprocidade!
E se por mais que a confiança
Se perder em uma desesperança qualquer...
Grite no escuro que me quer,
Vou me por à mesa.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Sapato velho.

Já posso enterrar meu sapato velho?
O tempo de tão mórbido e seco, o despedaçou por dentro.
A sola já se foi, o cadarço eu perdi...
E o resto? - Eu não sei, não vi.

Não posso mais usar este sapato,
Por mais que inúmeras vezes requisitado.
Em lugares e momentos estrelados...
Jamais esquecidos, sempre lembrados.

Mas já não posso, com ele andar,
Segue a vida em marcha luz,
Outro sapato, tão bom quanto, surge ali.
É só você se permitir.

No começo é estranho,
Desconfortável e penoso...
O pé não encaixa, e vem com raiva!
Mas cautela, o tempo também passa.

Não me desmistifique,
Causo bolhas, mas sou aconchegante.
Por mais que um instante,
Sou posto em prateleiras distantes.

Sou farto, sou cheio, sou sapato novo ao vento.
Não me deixes secar ao relento - Não!
Me negues afeto, mas não me obtenhas por consumo...
Lá fora posso ser de (todo) outro mundo.

Porém, se confirmares e comigo caminhar,
Podemos, sim, recomeçar!
Por mais que imperfeitos...
Sem castigar o bem que vem de dentro!


Ramon Conti.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Libertinagem.


As estrelas se movem, de norte a sul com uma velocidade invisível.
Assim como seu desejo, assim como seu desamor.
As verdades brotam no meio do trigo como raiva em ser arrependido,
Assim como medo em escuro e devaneio.

Tão sortudo, na mesmice solta,
Dos que se embriagam na esquina em busca de sossego...
Não acharão nem mesmo o grão, o pó, o resto de migalha
Para saciar as suas cedes de gana, de vitória, de raça.

Você acaba com o riso,
Por mais que intencionalmente. Abre seu leque de opções pragmáticas.
Dá trela para uma miragem passada,
E ainda se diz no direito de responder na mesma voz.

Não, você é pouco na medida do tempo,
Se ficar para trás é sinal que ainda sente o pulsar ambíguo do coração,
No momento que lê uma citação do objeto alheio...
Se pergunte: estou pronto para o novo?

Desgaste é tempo curto e mofado, tão guardado que uma hora apodrece.
Vira pouco, vira um arrependimento de não ter apreciado.
Faça, se possivel, uma prece, igual aos devotos viciados em reza.
E depois de um tempo, me diga: 'Para que tanta fé?'

Saía de trás das nossas conversas - indiretas.
Saberei, que por mais doce que seja, você ainda é imperfeito.
Não me enganas, não me julgues, o bem que te faço,
No desejo passado, na tentativa de equilibrar as coisas.

Desmistifique o incompreendido, me ligue caso sinta remorso,
Mas nunca me culpe pelo desejo não dado, pelo abraço negado...
Ou melhor, pelo menos, por ter tentado.

Desligue-se do passado,
Reinicie o presente,
- É brando, é longo...
Abrace-me se sentir frio.

Pois já vi homens morrerem de sede, de fome, de medo.
Em guerras turvas e amaldiçoadas,
Ainda sobram resquícios da voz amada,
Dos que vivem em busca do novo, só do novo
Por mais que cometam os mesmos velhos erros.

Ramon Conti

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Fogo, pedra, pena, problema.


Desfaço um texto amarrado pelo passado
Afogado pelo presente e incrédulo pelo tempo.
Desmistifico o incompreendido, sonho com sorrisos.
Como pode sentir tanto com tão pouco?

Alienou-se com a verdade para expulsar o medo.
Fez da vida um emaranhado de pouca coisa oca.
Tão leve quanto pena, tão longe quanto vento.
Como pode sentir tão pouco com tanto tempo?

A mortalha dos desnudos de fé,
Tão sobriamente abandonados no recanto vazio,
Do mais incompreendido problema, que devora...
Os homens fracos no encaixar da derrota.
Como pode tudo, se nada for resolvido?

Fogo aceso em pedra furada,
Tão arranhada, tão intacta.
Findar o amanhecer, sem ter com quem brindar,
Como pode o frio, sem alguém para esquentar?

Pena, na falta de resolução.
Partiu para tão longe, que se perdeu nos moinhos da estrada.
Amarrou a angustia numa corda e partiu sem volta.
Como pode fugir, sem um motivo a buscar?

Fogo, pedra, pena e um problema,
Como pode ser poeta sem emblema?
Fogo, pedra, pena e um problema,
E se tudo for? - Nada será, seja o que for!

Ramon Conti

domingo, 15 de abril de 2012

Conceito.

Concepções 'cognitivas' fazem você adentrar em devaneios perigosos e obscuros. Remetendo o controle para um comportamento de opressão, distribuindo um modo excêntrico de desperdiçar sorrisos bobos, tão avassalador que os olhos não vem, o corpo não sente e a alma não vive... O que eu mais gosto em mim? Os sonhos, pois eles nunca me ludibriam, nunca me enganam... E é para eles que eu volto quando o mundo se volta a toda prova! Sonhar não dói.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O antes do por-do-sol.

Não me deixe adormecer sem antes dizer aquilo que trago amarrado na garganta e preso no bolso. Delírio que atormenta a alma e fere os pulsos. Ainda marco um lembrete no dedo para lembrar do nosso momento mais puro, de quando os olhares só procuravam inocência e esbanjavam sorrisos envergonhados pelo toque sem causa e pela vida sem pressa. Hoje, corremos em direções opostas, a água inundou o celeiro e os cavalos fugiram de medo. Borboletas cantam na primavera, e os pássaros migram com ela... E foi assim, migrado, sem deixar cartas, apenas sonhos, que amanheceu um dia nublado, sem história e com pouca mocidade.
Sorteamos o ultimo por-do-sol, para uma tentativa de almejar o desconhecido, mas, o ganhador o levou consigo, tão longe e tão perto, que só sobraram vestígios luminosos no caminho, que ainda brilham e aumenta a esperança para que ninguém se perca, nem mesmo por falta de carinho.

Ramon Conti